Faces da Crise

PCB Foz 28 de junho de 2013 Comentários

Protesto_Foto_Marcos_Labanca_12Claudio Reis

Dificuldade. Essa é a palavra que define qualquer tentativa de entender o que está acontecendo. Isso pelo alto grau de complexidade pelo qual os últimos eventos nacionais vêm se apresentando.

Do ponto de vista político, tem-se o PT que desde o seu primeiro mandato no governo federal tenta disseminar a idéia do “Brasil, um país de todos”, numa clara tentativa de unir a nação como se ela pudesse se transformar em algo homogêneo. A partir desse princípio, passou a implementar políticas assistências aos milhões de miseráveis, de um lado; e a promover o enriquecimento ainda maior da pequena-burguesia e do empresariado, de outro. A busca é conciliar os antagonismos. Leitura totalmente equivocada, mas que por algum tempo fez parecer a saída para o capitalismo, principalmente diante da atual crise. Esse programa até agora vem sendo transmitido ao mundo como a perfeita solução aos problemas enfrentados pelos países da Europa e pelos EUA.

Esse erro não é novo. Na virada dos séculos XIX e XX, algo do tipo foi defendido pelos social-democratas e socialistas europeus. E os resultados foram a Primeira Guerra Mundial e a ascensão do nazi-fascismo. Os comunistas, apesar da crítica a esse movimento voltado à reforma do capital, não conseguiram força suficiente para conte-lo. Talvez, a grande exceção tenha sido o caso russo.

Ao que parece, a história está novamente sinalizando que os seus condutores políticos não a conhecem. Mais uma vez, exige que seja entendida como movimento contraditório, por forças e interesses antagônicos. E contra isso não dá pra lutar. O PT, principal condutor político-nacional, não reconheceu isso e agora está sendo cobrado. Seu governo, voltado para todos, está fazendo com que todos se voltem contra ele.

Essas grandes manifestações estão demonstrando isso. De um lado, têm-se os partidos e os movimentos de esquerda, de outro, setores conservadores e reacionários. Ambos disputando o mesmo espaço nas ruas. E o choque entre esses sujeitos, está demonstrando didaticamente que a luta de classes ainda é uma dimensão fundamental da vida social. Ao contrário dos que afirmaram o seu fim, ela ainda está presente. E isto pode ser visto e sentido nestas manifestações.

Com o PT no governo a leitura que se faz é: para os conservadores, estamos diante de um golpe comunista; para os comunistas estamos perto de um golpe conservador. É óbvio que a direita tem mais força afinal, além de controlar grande parte do Estado, ela detém os meios de produção. Portanto, tem maiores condições para se impor como força hegemônica. A esquerda comunista, apesar de ser a alternativa à barbárie capitalista, ainda não se apresenta como força de massa, dos trabalhadores e das trabalhadoras. Neste sentido, seria possível dizer então que estamos diante de um golpe das classes dominantes? Tudo indica que não, pois o PT não está dando motivos para tanto. Sua política econômica contempla facilmente os grandes interesses. Essa é uma leitura que nos retira da fobia sempre presente quando se faz a crítica comunista a esse Partido. Sempre quando se questiona tal governo, logo alguém diz: “estão dando força para a direita”. Na verdade, quem está alimentando o protofascismo no Brasil é próprio PT, com sua política equivocada. E seus dirigentes não podem se esquecer que aqueles que já alimentaram o fascismo, por ele foram devorados.

Do ponto de vista cultural, os frutos estão sendo colhidos. A indústria que cuida desse setor vem demonstrando grande eficiência. E os jovens são os principais alvos. Músicas esvaziadas de alteridade, literatura voltada ao sucesso pessoal, mundo virtual amesquinhado, fanatismo religioso ganhando cada vez mais força social, etc., tudo isso, dá maior vantagem para o avanço conservador protofascista. Cada um desses pontos deve ser colocado para as forças progressistas e populares debaterem. Como enfrentar? Como construir uma alternativa? A reversão desse cenário, que demonstra uma derrota cultural de tais forças, precisa partir da própria política. E de modo imediato. Os movimentos populares e os partidos de esquerda precisam enfrentar essa questão cultural como parte do seu avanço. Como se faz isso? Essa é uma questão que se responde na práxis.

Economicamente, o mundo capitalista atravessa sua pior crise. E seria tolice acreditar que ela ficaria restrita aos países ricos. A política econômica do Brasil, nas últimas décadas, vem se voltando para o fortalecimento do acúmulo de capital em seu território. Com o PSDB, o centro era o capital financeiro, com o PT é o capital produtivo. Se o primeiro tomou conta da economia capitalista global, o segundo, principalmente nos países com potencial ainda enorme de consumo, vem sendo visto como a saída para a crise. A questão é que se de um lado, o capital financeiro é gerido por alucinados descolados da realidade concreta; o segundo, provoca a clássica crise do capitalismo: a superprodução. Não há sociedade minimamente racional que consiga absorver tudo que é produzido nas fábricas altamente equipadas. No caso do Brasil, até ontem o país mais desigual do mundo, o consumo está se dando pelo enfraquecimento do Estado, com políticas de isenções fiscais para as grandes empresas, tudo para baratear as mercadorias para que o maior número possível de pessoas possa ter acesso. Essa é uma política econômica de alto risco, pois todos sabem que o mercado é extremamente instável, o que significa que se hoje o trabalhador consegue comprar essas mercadorias, amanhã pode estar desempregado e endividado. O que já está acontecendo. Com isso, o chamado “círculo virtuoso do mercado” (mais consumo = aumento da produção = aumento de carteira de trabalho assinada), pode a qualquer momento ir embora. Se o Estado não enfrentar verdadeiramente o capital especulativo e o grande empresariado, o avanço social vai ser sempre aparente.

Há um mês, poucos arriscariam afirmar que teríamos em breve manifestações de massa por todo o país. Isso porque nem sempre é possível identificar quando as contradições, existentes no mundo real, ganharão vida política.

E agora é hora da esquerda se unir, afinal nossas bandeiras estão sendo queimadas! Sem a fobia de criticar o PT, pelo avanço dos trabalhadores e trabalhadoras, índios, negros e todos e todas perseguidos neste país, pela fúria reacionária.
Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade!!!

Claudio Reis é militante do PCB.