Furacão “Yoani Sanchez”

PCB Foz 1 de março de 2013 Comentários
Furacão “Yoani Sanchez”

Claudio Reis

Nos últimos dias, a cena política brasileira foi tomada pelo “furacão Yoani”. O seu estrago, no âmbito ideológico, pode ser comparado a um furacão de média intensidade para a vida material. Não foi pequeno, já que conseguiu movimentar certas paixões de lado a lado, da esquerda à direita; mas também não foi um “Katrina”.

De qualquer modo, a sua passagem no Brasil ganhou uma força tão excessiva que acabou se descolando da realidade. Yoani aterrissou em terra brasillis como se portasse “a” verdade sobre Cuba e o seu regime. O clima criado pela nossa grande imprensa, ferrenha defensora da liberdade de expressão, tentou nos transportar para o ano de 1956, quando Khruschov oficializou os chamados “crimes de Stalin”. No caso de Yoani, teríamos a revelação detalhada dos “crimes de Fidel”. E quando todos esperavam a “bomba”, nada de novo apareceu.

Nós, brasileiros desde crianças, somos educados com afirmações grosseiras sobre Cuba e sua “ditadura”. O grau de satanização do regime cubano entre nós não é de se desconsiderar. Portanto, o que ela disse não apresentou nada de novo sob o Sol. Quem sabe até chegou a contrariar nossa “impressa democrática”, acostumada a elevar a enésima potencia os problemas dos cubanos. Dessa forma, a Yoani pode até ter sido progressista.

Entretanto, foi estranho ver muitos críticos da nossa democracia liberal burguesa, passar a utiliza-la como parâmetro para desqualificar o regime cubano. Pela direita, românticos defensores da ditadura civil-militar, assumiram coro contra o castrismo e a falta de direitos humanos na Ilha; pela esquerda, defensores do socialismo passaram a analisar nossa atual democracia como um regime mais avançado e civilizado quando comparado aquele existente em Cuba – burocratizado e promotor de desigualdades.

Em ambas as direções, um mesmo problema persiste: a análise pseudoconcreta, da situação pseudoconcreta. Pecaram na análise histórico-concreta de Cuba. Neste sentido, desconsiderando a nossa ilustre direita que em nada acrescentou, algumas perguntas simples e diretas devem ser feitas para os demais: o que gerou a revolução cubana?, deveriam os cubanos continuar sob tutela dos EUA? e a sua realidade objetiva, possibilitava maior avanço? Sem entrar nos índices sociais da pequena Ilha que envergonha poderosos econômicos como o próprio Brasil, a luta daquele povo para construir uma vida digna deve ser considerada. Ou o seu esforço já estava, de antemão, fadado ao fracasso? Afinal, para muitos, a revolução socialista somente trará a possibilidade de emancipação humana quando ocorrer nos países do centro, entre os ricos. No elo mais forte da cadeia.

Só o fato de a Revolução Cubana ter enfrentado a grande potência político-militar do capital mundial, que são os EUA, livrando a Ilha da condição de mera “zona de lazer” norte-americana, já garante o nosso respeito ao povo cubano.

Se no caso da direita, a defesa de uma democracia em Cuba não passa de puro cinismo; no caso de parte da esquerda, parece um equívoco ter como parâmetro o nosso caduco regime. Lembrando a conhecida afirmação de Saramago: “O poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não se gosta e a pôr outro de que talvez venha a se gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas em uma outra grande esfera e todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais, os FMIs, a Organização Mundial do Comércio, os bancos mundiais.” (Fórum Social Mundial, janeiro de 2005) A demonstração de mais exemplos que colocam a atual democracia como forte instrumento de dominação das classes dominantes, seria inútil devido a sua quantidade.
Enfim, ter o nosso regime político como parâmetro para condenar o governo cubano parece um equívoco grave.

De qualquer forma, o “furacão Yoani” está indo embora para outras terras, levando consigo a figura do anti-Che. Aqui, deixou alguns estragos em conceitos como “liberdade” e “democracia”, mas nada irrecuperável.

Claudio Reis é cientista político.